Entre o riso e o cuidado: Sorriso de Plantão transforma experiência de pacientes em hospitais de Alagoas

Projeto une extensão universitária, promoção da saúde, integra a rede nacional de palhaços de hospital e possui reconhecimento internacional, fortalecendo práticas inovadoras na medicina moderna

Por Lucas França e Valdete Calheiros - Repórteres / Bruno Martins: Revisão / Divulgação: Foto de capa | Redação

Com nariz e maquiagem de palhaço e muito amor ao próximo, centenas de voluntários percorrem, todos os sábados — inclusive em datas festivas e feriados — os corredores dos principais hospitais de Maceió para tentar amenizar a dor e a busca pela cura dos pacientes. E, incrivelmente, eles conseguem, provando que o amor é um dos alicerces do tratamento.

A missão é dos voluntários do Projeto Sorriso de Plantão, que completou 24 anos no último dia 27 de março, acumulando mais de duas décadas de atuação contínua na humanização hospitalar em Alagoas.

O Sorriso de Plantão é vinculado à Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Com muita música, paródias, dinâmicas de grupo, instrumentos musicais, poesias, conversas olho no olho, contação de histórias, momentos lúdicos, afagos, apertos de mão, risos e lágrimas, uma linda relação é construída entre os palhaços do Sorriso de Plantão e os enfermos, sejam adultos, crianças ou idosos.

O Sorriso de Plantão consolidou-se como um projeto de extensão universitária que dialoga com a rede pública de saúde e com a sociedade, envolvendo diferentes instituições parceiras ao longo de sua trajetória. Por isso, alunos de universidades particulares também podem participar.

Estudantes e profissionais de saúde levam humanização para os hospitais de Alagoas (Foto: Divulgação)

Conforme a coordenadora do projeto, a professora Maria Rosa da Silva, ao longo de mais de 20 anos estima-se que milhares de pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde tenham sido impactados diretamente pelas ações do projeto, considerando a atuação contínua em hospitais, maternidades e unidades de saúde. Há registro de cerca de 10 mil atendimentos por ano.

O Projeto de Extensão Universitária Sorriso de Plantão surgiu em 27 de março de 2002, iniciado por um grupo de alunos do curso de Medicina da Ufal, inspirado pela notável iniciativa dos Palhaços de Hospital do grupo Doutores da Alegria.

Inicialmente voltado para estudantes da área da saúde da Ufal, o projeto gradualmente abriu suas portas para alunos de diversas graduações, expandindo-se também para outras faculdades. Essa ampliação reflete a visão de que o trabalho desenvolvido se baseia na solidariedade, algo independente da profissão exercida.

Em 2008, uma parceria foi firmada com a Pró-Reitoria de Extensão da Uncisal (Proex), estabelecendo que Ufal e Uncisal seriam responsáveis pelo apoio logístico e financeiro para a manutenção das atividades do projeto.

Sede da Uncisal em Maceió (Foto: Ascom Uncisal)

Desde então, o grupo desenvolve atividades lúdicas com pacientes hospitalizados em seis hospitais públicos de Maceió: Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA), Hospital Geral do Estado (HGE), Hospital Escola Dr. Hélvio Auto (HEHA), Hospital Santa Casa – Unidade Farol, Hospital da Criança de Alagoas (HCA) e Hospital Metropolitano de Alagoas (HMA).

Atualmente, 142 integrantes participam da edição 2025/2026 do projeto. São estudantes de diversos cursos, especialmente das áreas da saúde, mas também das Ciências Humanas e Exatas.

A Uncisal e a Ufal constituem a base de apoio financeiro. O Sorriso de Plantão também recebe doações de empresas parceiras em eventos pontuais. O projeto está entre os trabalhos pioneiros na promoção da saúde terciária em Alagoas.

O Sorriso de Plantão está inserido na rede nacional de palhaços de hospital. A coordenadora Maria Rosa da Silva é uma das principais pesquisadoras brasileiras da área, com participação na Federação Europeia de Palhaços de Hospital, decorrente de intercâmbio realizado na Universidade do Minho, em Braga, Portugal.

Conforme Maria Rosa da Silva, o Sorriso de Plantão demonstra, na prática, que a humanização não é acessória — ela é parte fundamental do cuidado em saúde. O riso, quando conduzido com ética, formação e sensibilidade, transforma relações, fortalece equipes e impacta positivamente a recuperação dos pacientes.

'Esse trabalho reforça a importância da humanização na assistência à saúde, algo essencial na recuperação dos pacientes. Um sorriso, um gesto de atenção ou uma palavra de conforto têm poder terapêutico imensurável' - Pollyanna Almeida, reitora da Uncisal

Professora Maria Rosa apresentou os resultados de sua pesquisa de doutorado na Suíça (Foto: Arquivo pessoal)


Reconhecimento internacional e destaque na Suíça

No último mês de março, o Sorriso de Plantão foi destaque em um encontro internacional de humanização hospitalar na Suíça. O projeto de extensão integrou a programação de um evento sobre a atuação de palhaços na área da saúde.

O feito inédito aconteceu durante o Healthcare Clowning International Meeting (HCIM) 2026 — Encontro Internacional de Palhaços da Área de Saúde — realizado de 11 a 13 de março, em Lausanne, na Suíça. A coordenadora do projeto, Maria Rosa da Silva, esteve presente representando a Uncisal.

No evento, ela apresentou os resultados de sua pesquisa de doutorado sobre as contribuições da palhaçaria hospitalar para a humanização das relações no ambiente de saúde.

O HCIM é um dos principais encontros internacionais dedicados à discussão do papel dos palhaços promotores de saúde em contextos hospitalares. O evento reuniu pesquisadores, profissionais e organizações que atuam com práticas de cuidado humanizado, promovendo intercâmbio científico e institucional entre experiências de diferentes países.

A pesquisa apresentada pela docente é resultado do Doutorado Interinstitucional (Dinter) realizado entre a Uncisal e a Universidade de São Paulo (USP). O estudo investiga como a atuação desses profissionais interfere positivamente nas dinâmicas hospitalares, especialmente nas relações entre equipes de saúde, pacientes e familiares.

Maria Rosa da Silva, que também é pró-reitora de Extensão da Uncisal, afirmou que o evento representa uma oportunidade de levar a experiência desenvolvida na universidade ao circuito internacional de pesquisas sobre humanização em saúde. Segundo ela, o reconhecimento do trabalho fortalece a visibilidade das ações de extensão desenvolvidas pela instituição. “A participação no HCIM representa o reconhecimento internacional do trabalho desenvolvido em Alagoas. Levar o Sorriso de Plantão para esse espaço reafirma a potência das práticas brasileiras de humanização, especialmente aquelas construídas no SUS [Serviço Único de Saúde], como referência para o mundo”, celebrou a professora.

Professora Maria Rosa, ao centro, durante o evento na Suíça (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo ela, esse é um espaço importante para compartilhar o que foi construído ao longo dos anos com o Sorriso de Plantão e, ao mesmo tempo, aprender com experiências internacionais que também trabalham a humanização hospitalar por meio da arte.

Além da apresentação da pesquisa, a professora destacou que a participação também busca fortalecer redes de cooperação acadêmica. De acordo com ela, a aproximação com instituições e pesquisadores pode abrir caminhos para futuras parcerias e intercâmbios científicos. “A expectativa é ampliar essas conexões e consolidar o projeto dentro dessa rede internacional que pesquisa e desenvolve práticas de humanização hospitalar”, afirmou.

Com 24 anos de atuação, o Sorriso de Plantão consolidou-se como uma das iniciativas de extensão mais duradouras da Uncisal na área de humanização em saúde.

Em parceria com a Ufal, o projeto desenvolve ações em unidades hospitalares com foco no cuidado integral e na valorização das dimensões emocionais e sociais do processo terapêutico.

A trajetória da iniciativa acompanha o próprio desenvolvimento do movimento internacional de palhaçaria hospitalar, que completa 40 anos neste ano.

Para Maria Rosa da Silva, essa conexão demonstra como experiências locais podem dialogar com agendas científicas globais e contribuir para a produção de conhecimento na área.

A participação no congresso também contou com a presença de duas egressas do curso de Enfermagem da Uncisal, Vera Lúcia Gomes Rocha e Maria Júlia Lopes de Barros Lima, atualmente aprovadas em programas de mestrado da Ufal. As pesquisas desenvolvidas por elas dão continuidade às investigações iniciadas pela professora Maria Rosa da Silva sobre humanização hospitalar.

Segundo a coordenadora do projeto, proporcionar esse contato com o ambiente científico internacional também faz parte da formação de novos pesquisadores. Ela explicou que a experiência contribui para ampliar a visão acadêmica e fortalecer a integração entre graduação, pós-graduação e extensão. “A inserção de estudantes nesses espaços ajuda a formar novos pesquisadores e fortalece a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, que é essencial para a universidade”, concluiu Maria Rosa.

Projeto Sorriso de Plantão (Foto: Divulgação)

Humanização que transforma

Fundamentado na quebra do estigma de que hospitais são ambientes sombrios e tristes, o projeto acredita que as visitas possuem valor terapêutico. A tristeza é entendida como um fator que pode agravar a recuperação dos pacientes. Assim, ao levar alegria ao ambiente hospitalar, o grupo contribui para o bem-estar e, consequentemente, para a saúde dos pacientes.

Pioneiro no campo da Promoção da Saúde na Atenção Terciária em Alagoas, o projeto está inserido na rede nacional de palhaços de hospital e já participou do grupo de pesquisa da Federação Europeia de Palhaços de Hospital (EFCHO), mantendo-se em constante atualização e aperfeiçoamento.

O Sorriso de Plantão se tornou uma referência significativa para a universidade, acumulando produções acadêmicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais, além de publicações em revistas de alto impacto. O projeto também inspira trabalhos de conclusão de curso, residências, mestrados e doutorados.

Como ser voluntário

Para participar do projeto, é necessário ser universitário, entre o primeiro e o penúltimo ano do curso, independentemente da área de formação — Saúde, Humanas ou Exatas — e estudar em qualquer instituição de ensino superior, pública ou privada.

A seleção ocorre anualmente em três etapas:

  1. Prova escrita, baseada em situações que ocorrem nos plantões;
  2. Apresentação artística (canto, dança, interpretação, contação de histórias, desenho, declamação de poemas, entre outros);
  3. Entrevista com a coordenação e integrantes veteranos.

Para participar, o candidato deve estar com o cartão de vacinação atualizado, incluindo as vacinas de Covid-19 (dose anual), Hepatite B, dT, Tríplice Viral e Varicela para quem não teve catapora.

As inscrições e o acesso ao edital podem ser encontrados no perfil oficial do projeto, @sorrisodeplantao, ou pelo site: www.sorrisodeplantao.com.br/pa....

Os membros passam por uma seleção anual, na qual dão vida a um irmão gêmeo interpretado por sua melhor versão. A cada ano, novas inscrições são abertas para quem deseja integrar o grupo. As datas dos processos seletivos podem ser acompanhadas pelo Instagram ou pelo site oficial - https://sorrisodeplantao.com.b....

E-book registra histórias de humanização

Em outubro do ano passado, o Sorriso de Plantão transformou suas experiências em literatura com o lançamento do e-book “O Universo Literário da Palhaçaria Hospitalar”. A publicação reúne 32 capítulos, entre crônicas, poesias e contos, escritos por antigos e atuais integrantes do projeto, oferecendo uma imersão sensível no universo da palhaçaria hospitalar. O e-book anterior, “Sorriso de Plantão: Por trás do nariz vermelho”, já havia registrado relatos e experiências do grupo.

Hospitais, estrutura e registros do Sorriso de Plantão com leveza e acolhimento

O Sorriso de Plantão atua em diversas instituições de saúde de Alagoas, contribuindo para humanizar o atendimento e tornar o ambiente hospitalar mais acolhedor:

HCA– Fruto do Programa Criança Alagoana (Cria), oferece cirurgias eletivas, clínica médica e cirúrgica, ambulatórios de especialidades, centro de imagem, atendimento ambulatorial a crianças vítimas de violência sexual e sala de transfusão enzimática.

HEHA – Hospital referência no tratamento de doenças infectocontagiosas em todo o estado de Alagoas.

HGE – Presta atendimento humanizado de urgência e emergência, Unidade de Terapia Intensiva (UTI), observação, internamento e Centro de Tratamento de Queimados (CTQ).

Fernando Fortes Melro Filho, diretor geral do HGE, afirmou que “o Projeto Sorriso de Plantão tem papel fundamental nas unidades de saúde de Alagoas, levando acolhimento, leveza e humanização aos pacientes e familiares. Essas ações contribuem para o bem-estar emocional, tornando o período de internação mais leve e complementando o cuidado das equipes de saúde. Agradeço a todos que fazem parte do projeto pelo compromisso, dedicação e solidariedade demonstrados em cada visita.”

HMA – Referência de média e alta complexidade, com ambulatório de especialidades médicas para diagnóstico precoce e orientação terapêutica.

HUPAA – Conhecido como HU, o projeto na unidade é tratado com seriedade, recebendo apoio estrutural e logístico do hospital.

O superintendente Célio Rodrigues, do HUPAA, ressaltou que o projeto é muito sério e leva atendimento humanizado e com técnicas modernas aos pacientes em vários hospitais de Alagoas. Segundo Célio, o projeto teve início no Hospital Universitário em parceria com a Uncisal. Célio Rodrigues destaca, no áudio abaixo, outros pontos do projeto, escute:

Superintendente Célio Rodrigues, do HUPAA (Foto: Assessoria)

Santa Casa de Misericórdia de Maceió – Unidade Farol – Atua na oncologia pediátrica para pacientes do SUS, sendo exemplo nacional em segurança e excelência na assistência.

Clínica Infantil Dra. Daisy Brêda – Atendimento pediátrico e tratamento de crianças com asma, incluindo fornecimento de espaçadores e acompanhamento contínuo do tratamento.

Um trailer para os palhaços do hospital

Em 2024, o projeto inaugurou o primeiro camarim móvel de palhaços de hospitais do Brasil, revitalizado em parceria com a Polícia Militar de Alagoas e a empresa Orizon Valorização de Resíduos. O trailer conta com um espaço para armazenamento de materiais, vestiário, área de convivência, pia e ar-condicionado, garantindo o conforto e a funcionalidade necessários para os integrantes.

A necessidade de um espaço próprio surgiu pela falta de um ambiente onde os integrantes possam se preparar e armazenar materiais importantes para as atividades, como álcool em gel, brinquedos, vestimentas e acessórios.

Trailer do Sorriso de Plantão (Foto: Divulgação)

Alguns dos hospitais onde o projeto atua não conseguem disponibilizar o espaço necessário, e em atividades externas ou pontuais, os integrantes sentiam a ausência de um ambiente apropriado para organização e preparação.

Em março do ano passado, o projeto recebeu a Comenda Arthur Ramos, concedida pela Câmara Municipal de Maceió. No mesmo ano, durante as comemorações do 23° aniversário do Sorriso de Plantão, o projeto ganhou um documentário. O vídeo apresenta imagens das atividades realizadas nos hospitais, depoimentos dos integrantes e a evolução da iniciativa desde sua criação, em 2002. O documentário pode ser assistido a seguir.

Exemplo mais sensível e transformador de compromisso social

A reitora da Uncisal, Pollyanna Almeida, destacou que o projeto de extensão Sorriso de Plantão representa um dos exemplos mais sensíveis e transformadores do compromisso social da universidade. “Mais do que uma iniciativa acadêmica, o Sorriso de Plantão é uma expressão concreta do cuidado humanizado que defendemos dentro da Uncisal. A presença dos estudantes nos ambientes hospitalares, levando leveza, escuta e acolhimento, contribui significativamente para o bem-estar emocional dos pacientes, familiares e também das equipes de saúde.”

Segundo a reitora, o impacto do projeto vai além do ambiente hospitalar. “Esse trabalho reforça a importância da humanização na assistência à saúde, algo essencial para a recuperação dos pacientes. Um sorriso, um gesto de atenção ou uma palavra de conforto têm um poder terapêutico imensurável.”

Reitora da Uncisal, Pollyanna Almeida (Foto: Ascom Uncisal)

Pollyanna Almeida também enfatizou o papel formativo da iniciativa. “Para os nossos estudantes, participar do Sorriso de Plantão é uma oportunidade única de desenvolvimento pessoal e profissional. Eles aprendem, na prática, valores como empatia, responsabilidade social e sensibilidade, competências fundamentais para quem escolhe atuar na área da saúde.”

A reitora ressaltou ainda o crescimento do projeto ao longo dos anos. “O Sorriso de Plantão tem se expandido de forma consistente, alcançando mais espaços e impactando um número cada vez maior de pessoas. Isso demonstra a relevância da iniciativa e o engajamento da nossa comunidade acadêmica.”

Por fim, ela reforçou o significado do projeto para a instituição. “Para a Uncisal, o Sorriso de Plantão simboliza aquilo que acreditamos: uma formação que integra conhecimento técnico, compromisso ético e responsabilidade social. É um orgulho ver nossos estudantes sendo agentes de transformação na vida das pessoas.”

A professora da Faculdade de Medicina (Famed) da Ufal e coordenadora-adjunta do Sorriso de Plantão, Raianne Kivia de Azevedo Bispo, destacou que o objetivo do Sorriso de Plantão é humanizar o ambiente hospitalar, fazendo com que os pacientes se sintam acolhidos e ajudem na resposta terapêutica ao tratamento. “Fundamentado na quebra do estigma de que hospitais são ambientes sombrios e tristes, as visitas têm um valor terapêutico. A tristeza é entendida como algo que pode agravar a recuperação dos pacientes. Assim, ao levar alegria ao ambiente, o grupo contribui para o bem-estar e, consequentemente, para a saúde dos pacientes”.

Médica Raianne Bispo é coordenadora-adjunta do Sorriso de Plantão (Foto: Ascom CBTU Maceió)

Ela afirmou que o projeto está inserido na rede nacional de palhaços de hospital e já participou no grupo de pesquisa da EFCHO, se mantendo sempre em atualização continuada e permanente.

O Sorriso de Plantão, completou, tem um importante papel nas universidades também, com produções acadêmicas, apresentações em congressos nacionais e internacionais, além de publicações em revistas de alto impacto. O projeto também influencia trabalhos de conclusão de curso, residências, mestrados e doutorados.

Ex-participante do Sorriso, a médica Raianne Bispo ainda se emociona ao recordar sua experiência. “Eu era a palhaça Gororoba e foi incrível quando os alunos me chamaram para participar do projeto, agora como professora da Famed-Ufal. É um prazer enorme continuar fazendo parte deste projeto e ver como ele evoluiu com o passar dos anos! Hoje, além de expandir para um maior número de pessoas, pacientes e hospitais, também contamos com uma infraestrutura maior, brinquedos, sala de organização, maquiagem, adereços, eventos, a exemplo do Dia das Crianças, quando fazemos uma grande festa. Além disso, vários estudantes de diversas faculdades podem fazer parte, não necessariamente da área da Saúde, o que deixa o projeto ainda mais rico em troca de experiências e conhecimentos”, avaliou.

Acadêmicos apaixonados em tratar a saúde e levar cura através do sorriso

“O pequeno Lusco-Fusco morava em um observatório, onde seus pais, a Noite e o Dia, trabalhavam incansavelmente, o que aborrecia a criança, pois eles não tinham tempo para brincar ou sair para passear com ele. Um belo dia, o menino perguntou ao pai o que eles faziam de tão especial que não podiam sair do observatório, e o senhor Dia lhe respondeu: ‘sua mãe e eu fazemos o sol nascer e se pôr, filho, não podemos parar de trabalhar, os humanos precisam de nós’. O pequeno Lusco-Fusco não entendeu direito, mas aceitou a resposta do pai.

Depois de anos no observatório, entediado com a rotina dos pais, ele decidiu sair para explorar o mundo e conseguiu perceber a grandeza do trabalho dos pais: todo dia o seu pai fazia o sol nascer, trazendo o dia aos humanos, e sua mãe fazia-o se pôr, trazendo a noite. A passagem do tempo causada pelo movimento do sol lembrava aos humanos que nenhum sofrimento é eterno, e que há beleza em momentos de escuridão também. Afinal, as estrelas só se tornam visíveis após o pôr do sol”.

É com esse enredo que o acadêmico Luís Felipe Alves Paiva de Brito, de 28 anos, do 6° período de Medicina da Ufal, encanta os pacientes durante seus plantões. Ele participou do projeto durante o ciclo 2024/2025 e está atualmente no ciclo 2025/2026.

Luís Felipe Brito, o Dr. Lusco-Fusco (Foto: Divulgação)

“Apesar de ter que lidar com todas as demandas acadêmicas de um estudante de Medicina, nunca saí de um plantão do Sorriso arrependido de ter ido. Pelo contrário, muitas vezes cheguei cansado ou estressado e saí renovado. O Sorriso permitiu que eu resgatasse qualidades que outrora seriam esquecidas na correria do dia a dia, como a capacidade de ouvir, de me colocar no lugar do outro, de exercitar o lúdico, como fazíamos quando éramos crianças. Além de tudo isso, o Sorriso também é ótimo para fomentar pontualidade, compromisso e trabalho em equipe, uma vez que o projeto tem regras muito claras que devem ser seguidas para que tudo funcione bem. Talvez por isto o projeto tenha sobrevivido ao teste do tempo e se estabelecido como um dos mais longevos: apesar de fazermos muita palhaçada, levamos o Sorriso muito a sério”, contou, emocionado, Luís Felipe Brito.

Com quatro anos de projeto, o acadêmico Wandeck Emanuel Cardoso de Omena, de 22 anos, do 9° período de Medicina da Ufal, ou simplesmente “Dr. Olha Pro Céu”, dedica seu tempo e amor desde 2022 ao Sorriso.

“Comecei minha trajetória no Sorriso antes mesmo de começar minhas aulas na faculdade, gosto de dizer que sou mais palhaço do que médico. O Sorriso moldou a minha trajetória acadêmica. Os corredores do hospital têm outro tom quando se está de palhaço. O nariz vermelho devolve a autonomia do paciente, o simples ato de escolher uma música, por mais simples que pareça, lembra a pessoa de que ela é o centro do processo terapêutico. Nem tudo cabe nos comprimidos. O riso e o afeto não acabam com as doenças, mas deixam o tratamento mais leve. E o que é ser profissional da Saúde senão tornar o processo de cura menos sofrido? Eu nunca aprenderia isso com os livros, aprendi com pancake no rosto. No fim, ser palhaço foi o que nutriu minha fé pela Medicina, sem isso talvez não tivesse aguentado o processo. A arte traz leveza aos processos da vida”.

Wandeck Omena, o Dr. Olha Pro Céu (Foto: Divulgação)

A acadêmica Gabriela Calaça Calheiros Braga Apolinário, 21 anos, do 8° período de Medicina do Centro Universitário Afya de Maceió, dá vida à Dra. Chiliquinhos.

“Ela não sabia ao certo de onde vinha, mas dizem os estudiosos celestes que ela nasceu de uma supernova, enquanto o mundo dormia e o céu dançava distraído. E que ironia do destino: fruto de uma explosão de estrelas, diante da imensidão do universo, a sua estrela cadente pousou justamente numa cidadezinha no meio do nada: Coité”.

Segundo a Dra. Chiliquinhos, naquela pequena cidade ela resolveu ir atrás de respostas: o porquê das coisas, como o mundo funcionava e a razão de tudo. Afinal, ela nunca se contentou com respostas rasas, queria mergulhar de cabeça em tudo que via pela frente.

Gabriela Calaça Calheiros, a Dra. Chiliquinhos (Foto: Divulgação)

“Em Coité, Chiliquinhos e sua estrela de estimação, Lico, logo foram recebidos por seus irmãos. Irmãos tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão iguais – talvez fosse o vermelho do nariz... E quando tudo parecia diferente entre eles, como propósito, personalidade, estilo musical, doce favorito ou até mesmo a cor das meias, Chiliquinhos percebeu que, no fundo, era tudo igual. Era algo que não se tocava, não se explicava ou sequer se enxergava, mas que se sentia.

Em meio às aventuras de trem, as estações pareciam corredores sem cor, salas com um silêncio ensurdecedor e pessoas que corriam sem direção. Mas Chiliquinhos, com seu jeito implicante, meio atrapalhado, impaciente e cheio de bobagem, logo quis deixar tudo com a sua cara. Quis trazer o verde que chegava diante de seus olhos, a música que ditava as batidas do seu coração e todo o carinho que queria dar, mesmo que em forma de explosão estelar.

E no meio da viagem ela descobriu que, enquanto tentava abraçar o mundo, carregava um universo dentro de si. As respostas sempre estiveram com ela e tudo o que pensou doar, na verdade, também recebeu. Recebeu a energia que sua estrela precisava para continuar luminosa e com toda a intensidade.

É… talvez não soubesse de onde veio ou para onde ia, mas tinha certeza de que queria passar por todas as estações possíveis.”

"O projeto Sorriso de Plantão representa a cura que técnica nenhuma é capaz de ensinar. Usar o nariz vermelho é se vestir dos sentimentos mais bonitos que existem: nos permite tocar almas de pessoas que nem conhecíamos e ser curado, na mesma proporção em que curamos. Sou imensamente grata por ter tido a oportunidade de entrar para essa família, partilhar desse mesmo sentimento de pertencimento e por poder aprender que o meu trabalho, de agora em diante, irá muito além do que a faculdade de Medicina pôde e poderá me ensinar. Vivi experiências sem igual: adultos que puderam voltar a ser crianças, crianças que me passaram lições como adultos, o choro dos meus irmãos palhaços que puderam ser versões que eles ainda nem conheciam e, principalmente, o riso de quem mais precisava de consolo, mas ao fim do plantão, nos consolou. Obrigada por sempre ter me recebido de portas abertas, sou feliz por saber que - sempre que precisar - posso pegar meu trem pra Coité e ser a Dra. Chiliquinhos novamente", pontuou Gabriela Calaça Calheiros.